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o ator imaginário


Entrando no Desconhecido

Resumindo tudo desde o fim da oficina.
Começamos uma outra oficina para chegar aos doze atores que assumiriam a responsabilidade de serem os protagonistas do filme.
Ao fim de uma semana já estávamos com material suficiente para dar um parecer e decidir o que seria uma despedida de um momento de todos serem iguais para passar a cada um cuidar de uma função dentro do conjunto.
O anúncio foi feito com alegria, recebida com emoção e conformada com muitos abraços.
Leiam a matéria publicada no jornal A Tarde para terem uma idéia de como foi.
http://www.cservice.com.br/base1/imagemfilmes/F6219.htm
Por sinal essa matéria e o fato da imprensa acompanhar serviu para a próxima fase de preparação do filme. Todos receberam carinho de seus companheiros de oficina mas também de escola e de comunidade. Os pais daqueles meninos ficaram orgulhosos dos seus filhos e puderam compreender o tamanho do seu feito.
Comecei a preparação com uma provocação dizendo que eles eram feios e por isso foram escolhidos para serem os protagonistas. Isso tocou eles fundo. Eu ainda disse a eles que eles ainda não eram Capitães da Areia e por enquanto os únicos Capitães eram a Marina, o Ranmsés e eu. Que eles eram uns patetas.
E são....assinaram um contrato sem ler as letrinhas miúdas! Saíram no jornal sem sequer terem rodado uma cena e já conseguiram ser celebridades em seus lugares. Mas ser Capitão é muito mais. Tive que dar mais uma chinelada na imagem glamourosa que fazem do cinema e de seu futuro para fazerem olhar para onde estão caminhando. Fazer entender que com marra não se faz um personagem. Que a função daquela história é muito importante para nossa sociedade e que o que eles estariam teria uma importância maior ainda do que aquela notícia de jornal. Mas que estar onde estão agora é um grande feito da qual eles tem mérito sem desmerecer os outros.
A primeira semana dessa vida nova foi estranho. Sessões individuais para a maioria onde descarregava todo o contéudo de sua jornada e mostrei semelhanças/diferenças, aspectos positivos/negativos deles com seus personagens.
Para mim a personagem é um veículo para dizer algo. Mas o quê?
Isto eles estão aprendendo na medida em que conto a trajetória de cada personagem e essa trajetória dentro da história toda. Em que mostro a importância das relações entre os personagens, os preconceitos que terão que lidar, os desafios que terão que superar, os abismos em que vão cair.
Mostrei tudo isso para que começassem a pensar em si.
O seu livro de consulta são eles mesmos. Tudo que não esitver ali terá que ser aprendido, conquistado ou mesmo escrito por eles mesmos. Que os instrumentos dados na oficina serão seus utensílios para poderem viajar.
Novos Capitães. Novos Desafios.
Respirem meus amigos. A fábrica de monstros está apenas começando.
.....
Anteontem caminhando pelo shopping ouvi gritos de muitas crianças juntas. Era um Castelo de Horror que havia sido montado ali. E no cartaz dizia que lá era o único lugar em que os filhos podiam gritar com seus pais. Ao ver a galera saindo se via que eles tinham se divertido muito e estavam com cara de quero mais.
Essa é a cara dos meus atores. Ninguém sofre. Mas às vezes se assusta com seus próprios gritos e monstros que tem dentro de si.
O ator é aquele sujeito que sai da sua zona de conforto e voluntáriamente vai para a zona de conflito.
Um por um perguntei se eles gostariam de viver na rua, deixar seus pais, suas casa.... Eles responderam que não. Então retruquei dizendo que eles não queriam ser Capitães da Areia por que eles moravam na rua, eles assaltavam, eles passavem necessidades mas vocês por mais difícil que seja sua condição social ainda não estão lá.
Ficaram espantados.
E agora? Tudo que vão ser no filme são uns miseráveis, desgarrados que a sociedade que ver pelas costas. E que ao mesmo tempo lutam para encontrar um tratamento digno mesmo sem saber o que isso significa.
Com isso mostrei uma porta de entrada para serem Capitães da Areia.
Aceite o desafio de se olhar sem um espelho e isolado do mundo para a Beleza e Horror de cada um de nós. Olhe para sua vida e vê o que está fazendo, o que você quer aprender com essa experiência. Perceba a sua dificuldade de assumir um lugar nesse mundo, perceba a necessidade que tem de afeto, de conhecimento, de espaço para crescer.
Esse processo de amadurecimento deles é belíssimo. Mas eles vão continuar sendo feios e cada dia mais feios, sujos e malvados. É pelo contraste, pela transgressão do senso comum, do jogo de significados que se faz poesia que desafio o ser humano a decifrar o mistério.
O que faz uma criança apesar de sua condição ainda brincar? O que há por detrás da beleza das fachadas da velhas casas da rua do Comércio, da encosta da Montanha...da flor que é a cidade de Salvador que pulsa vida onde só há declínio.
Explicar isso é o que cada personagem faz nesse filme.




Escrito por Christian Duurvoort às 08h29
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